segunda-feira, 28 de junho de 2010

Amor sanguinário

Agora posso ouvir os passos e sinto que ele se aproxima cada vez mais. Não havia estrelas no céu e a lua havia se escondido. Por mais que aquela noite estivesse sem brilho, ainda dava pra ver as sombras, elas se mexiam em um compasso irregular e mesmo sentada na grama onde se iniciava o rio, eu ainda podia ouvir a voz dele chamando o meu nome. A festa estava bombando como sempre, as luzes magníficas, elas formavam um emaranhado de pisca-piscas que chegavam a te deixar zonza, a música bem ornamentada e também enfeitada, o ambiente estava o mais natural possível para uma festa de artistas. Tudo era muito brilhante, tudo era muito convidativo. Mas eu, particularmente, não via graça em nada disso, na realidade, eu estava lá por causa dele, somente por ele. Senti que os passos haviam se estabelecido e agora o som estava se emoldurando do meu lado, vi, mas não senti o movimento rápido que ele fez. Há um segundo eu estava sentada na grama, refletindo sobre a vida, no outro eu estava deitada no chão e ele sobre mim. Tentei falar, mas todas as tentativas foram em vão, ele silenciou-me com um beijo que há meses eu sonhava, deslizou a sua mão pela minha nuca e acariciou os meus cabelos. O encontro dos nossos lábios foi como em um encontro entre nuvens. Tão macio, tão doce, tão suave, eu sentia ele me devorando e ao mesmo tempo eu o devorava, os nossos lábios se encaixaram como se tivessem sido criados para experimentar aquele momento, aquela pessoa. Ali, não houve apenas uma troca de sentimentos, mas uma troca de almas. Foi como em um sonho, nunca imaginei, nem sonhei, nem nunca cheguei a arquitetar tal ato, mas aconteceu e foi ótimo. Mas, de repente, aquelas mãos que antes me abraçavam, aquela boca que tanto me beijava, aquele corpo que antes me queria, feriu-me o coração, senti a faca entrando no meu peito, senti a dor pulsando por meu corpo. Olhei em seus olhos e ali encontrei lágrimas, então, olhando novamente para aqueles olhos, olhando novamente para aquele rosto que eu tanto amei, disse minhas últimas palavras que saíram em sussurros: "Como você pôde? Você disse que me amava. Disse que me amava como eu era! Disse que não se importava. Disse que arrumávamos um jeito. Disse que fugiríamos...", mas a única e última coisa que eu ouvi foi: "Eu ainda te amo!".

Nenhum comentário: