domingo, 8 de agosto de 2010

Pai

Pai,
Eu não sei exatamente onde estás e muito menos tenho a certeza de onde estou. Só sei que vago há algum tempo. Não sei mais as horas e já perdi a conta dos dias, mas, tenho a convicção que procuro um algo que me firme em lugar permanente ou não, em um lugar seguro. É impressionante como as coisas são estranhas e ao mesmo tempo mutáveis, porém, o mais impressionante ainda é a forma como ficamos inertes a tudo isso, sem nada à fazer e nem mesmo poder pra agir. Perdi a conta de quanto tempo faz desde a última vez em que o vi, catorze, quinze anos, não sei. Só sei que fazes falta. Também já perdi boa parte da minha memória, já perdi boa parte das minhas lembranças. E me dou conta agora, novamente, que outra coisa que se torna impressionante é a data de validade de nossos pensamentos, tão puros, tão frágeis, que se perdem com o tempo, que se afogam com as mágoas. Acho que essa deve ser a primeira carta que escrevo e tenho certeza que essa é a primeira vez que tento me comunicar contigo.Não é fácil colocar num pedaço de papel tudo que penso em te dizer, mas, essa é minha última tentativa de superação ou até mesmo de esquecer e tentar viver sem pensar em como teria sido diferente se você não tivesse partido. E por mais que a dor inunda a minha vida, alma e ser, quero te dizer que fostes para mim um raio de sol. Que iluminou os meus dias com os teus pedidos, carinhos e palavras, que me ensinou coisas que o meu "eu" não consegue lembrar, mas, que o meu "tu" insiste em viver. É complicado falar de um alguém que não conheci, é complicado falar de um alguém que partiu e deixou um buraco enorme no meu coração e na minha vida, é complicado falar de um alguém que deveria ter sido a pessoa mais importante do meu crescimento, mas, que terminou como um fantasma que sufoca a minha vida de uma forma agradável. Pai, eu vejo outros pais e outras filhas, ambos com todos os seus erros e defeitos, com todas as suas falhas e degradações, eu vejo o amor entre eles e vejo as brigas por amor, cuidado e ternura. E toda vez eu me pergunto: "Será que seria assim comigo? Ele me levaria pra passear? Ficaria enciumado com o meu primeiro namorado? Teria me conduzido na minha festa de formatura? Me levaria ao altar com os olhos banhados em lágrimas?Teria dado broncas e cascudos pelas minhas más criações?" Sinceramente, não sei. Só sei que serias meu pai, meu herói, companheiro. Seria o homem que defenderia a minha honra, seria o homem que enxugaria as minhas lágrimas, seria o homem que eu teria minha primeira discussão, seria o homem que eu sempre sonhei ao meu lado.

Feliz Dia dos Pais,
Seja lá onde estejas.
Beijo

2 comentários:

ThayFreir disse...

Nossa! quanto sentimento...
Você conseguiu tocar meu coração com esse texto, além de escrever lindamente. mtos bjos

Minhas Pinturas disse...

Apesar da tristeza transmitida neste seu texto, ele é lindo e contundente.
Envolveu-me como aqueles livros que quando a gente pega para ler quer ir até o fim nem seja pela noite adentro.
Sinto muito pela sua mágoa e dor.
Mas quero parabenizar a escritora que você é.
beijos,
Léah
http://pinturaartesanato.blogspot.com