domingo, 6 de novembro de 2011

A história de um assassino

O romance narra a história de Jean-Baptiste, um homem que possui um olfato extraordinariamente apurado, mas que não possui cheiro próprio, nem pudores, nem limites. Mais tarde, essa sua falta de cheiro poderá ser interpretada como um representante de sua falta de moral em um mundo no qual o amoral e o ético lutam para achar um denominador comum. O autor, por sua vez, fez um trabalho memorável ao descrever a Paris do século XVIII, cenário onde nasceu Jean-Baptiste – abandonado por sua própria mãe em meio às tripas de peixes, podridão e ratos. Passou metade da sua infância num orfanato aonde, cresceu solitário, visto que todos que mantinham contato com ele achava-no repulsivo de uma forma estranha. 

O ENREDO – Durante toda a sua vida Jean-Baptiste teve vários acidentes, doenças e chagas. Trabalhou como aprendiz de curtidor e depois como aprendiz de perfumista. Sua obsessão com cheiros é tanta e tão absoluta que, então com 14 anos, ele apresenta a si mesmo a um proeminente, porém falido, perfumista (Baldini) que o ensina a arte anciã de misturar óleos, dissecar e isolar aromas, e reduzir flores e ervas a seus óleos essenciais. Um dia Jean-Baptiste encontra uma linda jovem de 12 anos com um perfume natural totalmente diferente de todos os outros que ele guardava na memória, e acabará por matá-la por acidente, com as suas próprias mãos, de tanto desejar apoderar-se do seu odor. Mas, esta jovem é apenas uma das muitas jovens que o protagonista mata (acho que 26 no total), em busca do perfume perfeito (no filme ele mata 14 mulheres). Jean-Baptiste é capaz de evocar as mais diferentes emoções no leitor, desde simpatia, curiosidade, repulsa e ódio, que mostra um profundo autismo ao aprender cheiros diferentes à sua volta como a maioria das crianças aprende o alfabeto, ou contam números no jardim de infância. Dessa forma, ele passa seus dias identificando e organizando os cheiros em seu mundo particular – parece um autista.

MUNDO DOS PERFUMES – A ação divide-se entre o mundo dos perfumes que serve para encobrir o mundo dos fedores, dos crimes, das mentiras e da hipocrisia que caracterizam a cidade de Paris no século XVIII. O livro, até pouco tempo considerado inadaptável para a linguagem cinematográfica, foi transformado em filme pelo também alemão Tom Tykwer e, segundo vários sites de cinema, o próprio Süskind negociou os direitos de filmagem com o produtor. O filme contou com um elenco de celebridades, tais como o maravilhoso Dustin Hoffman, de belas mulheres, de uma bela fotografia e de um roteiro muito interessante. Jean-Baptiste foi interpretado pelo até então desconhecido ator Ben Whishaw. O orçamento da produção extrapolou o valor de 50 milhões de euros, segundo informações contidas no site da Deustche Welle, mas valeu a pena, o filme ficou muito bom.

SUI GENERIS – Quando os críticos e leitores sentiram pela primeira vez o aroma de “ O PERFUME” em 1985, ele prontamente tornou-se um best-seller internacional sendo traduzido para 37 línguas diferentes. O livro de Süskind é sui generis: meio horror, meio suspense, meio ficção histórica, meio erótico, meio repulsivo, meio romance, meio melancólico. Ao mesmo tempo que oferece muitos insights na mente do criminoso insano, também especula sobre o papel que o senso comum tem em nossas vidas. Todo este mundo irreal e, de certa forma, sobrenatural, acaba por ser um pretexto que o autor utiliza engenhosamente a fim de explorar as paixões básicas que movem a humanidade: "o erotismo, o poder, a necessidade de afirmação e a procura de si próprio", retratada aqui na busca do perfume ideal . E embora esta seja a história de um assassino, o próprio subtítulo o indica, os crimes acabam por diluir-se, como que desculpados pela pureza das intenções destituídas de qualquer tipo de moralidade. É por este motivo que o fim deixa um travo amargo, já que não se retiram conclusões e só a dúvida fica no ar.

MENTES ABERTAS – Apesar de muita coisa do livro ter sido dispensada na versão cinematográfica, “ O PERFUME” é um livro que deve ser degustado de mente aberta, deixando de lado preconceitos e juízos de valor, porque só assim se poderá apreender a beleza de caráter mórbido que se desprende das páginas e a crítica subjacente: quantos são frágeis e dependentes do “eu animal”.

No final da história, Jean-Baptiste volta a Paris e é partido aos bocados e comido por pessoas, devido ao efeito do perfume que tinha derramado por todo o corpo. Agora, qual o significado desta morte horrível? Pode-se ter a falsa impressão de que o autor queira afirmar que os idealistas são consumidos pelas massas ou pela podridão que o sistema produz. Mas as últimas linhas do texto fazem pensar em algo diferente: “(...) seus corações estavam bem leves (...). Pela primeira vez , haviam feito algo por amor”. 
(“O PERFUME – A História de um Assassino” de Patrick Süskind)

Um comentário:

B. disse...

Esse filme é admirável, nos faz pensar bastante em diversas intenções da autoria, as vezes ainda reflito sobre o enigma da frase final. Um dia descubro e te conto!